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Subindo ao céu, o Senhor eleva nossa humanidade

por padre Junior Vasconcelos Amaral,

pároco, doutor em Teologia Bíblica e professor de Sagrada Escritura na PUC Minas


Lc 24, Jesus disse a seus discípulos: 46 “Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia 47 e no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48 Vós sereis testemunhas de tudo isso. 49 Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto”. 50 Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. 51 Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. 52 Eles o adoraram.  Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. 53 E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus.


A Igreja Católica e algumas outras comunidades cristãs globais celebram neste domingo a Festa da Elevação ou Ascensão de Jesus ao céu. A liturgia e seu significado teológico deste domingo deitam suas raízes na Sagrada Escritura: Lc 24,46-53, que nos inspira a perceber o retorno de Jesus ao céu, para junto de Deus, o Pai. O texto acima referido corresponde ao final do Evangelho segundo Lucas. Uma narrativa que tem como centro a ação de Deus na vida de seu Filho Jesus Cristo: Deus o eleva para junto de si. O passivo teológico (de Deus) “ser levado”, “levantado” indica que o agente da ação na vida do Filho Jesus, o Ressuscitado, é sempre o Pai, ou seja, Deus por excelência. Embora a palavra “ascensão” possa ser traduzida por “subida”; esta ação de Jesus está referida a Deus, que eleva a si toda nossa humanidade, na humana divindade de seu Filho. O Pai eleva seu filho aos céus e o torna “Senhor da glória”, com poder e majestade.

            A narrativa em questão inicia-se com uma anamnese, a recordação, ou memória dos os últimos acontecimentos referidos a Jesus, que ao aparecer aos discípulos (Lc 24,36-45), afirma: “Assim está escrito”, aludindo às narrativas e às teologias da Lei, dos Profetas e dos Salmos e toda a Escritura Sagrada como referentes à sua pessoa. Ele é a nova Torá, a nova profecia, o novo Mandamento de Deus.

            Nas Escrituras, a morte do Cristo, o Ungido, é uma realidade norteadora. Basta visitar os textos do profeta Isaías, nos cânticos do Servo de Yahweh-Adonai (Is 43). Mesmo que o profeta esteja referindo-se a Israel e a todo povo, que sofria o jugo do Exílio da Babilônia, a leitura que fazemos, a partir da ótica cristã, nos leva a pensar no Ungido do Pai. Jesus refere-se à Escritura que diz que ele deveria padecer e ressuscitar da morte. Esta narrativa é fundamental para todo o Novo Testamento, correspondendo ao cerne do querigma, o anúncio da morte e ressurreição do Senhor, proclamado pelos discípulos nos Atos dos Apóstolos e por Paulo em suas narrativas epistolares.

            Para Jesus, seu nome pregado às nações e ao mundo todo seria a forma de levar à penitência ou ao arrependimento e ainda ao perdão dos pecados, ou seja, à remissão ou redenção. Em consequência desta missão da Igreja, os discípulos de Jesus são as testemunhas de tudo o que se passou com ele.

            No v. 49 Jesus afirma que enviará o Espírito Santo, o paráclito. Nesta dinâmica litúrgica da narrativa, percebemos a ciência da fé da Igreja, que dentro de sete dias celebrará a Solenidade de Pentecostes, a festa do Espírito Santo, da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o responsável pela santidade e manutenção da Igreja, em sua assistência e amor renovador. O Espírito, segundo a narrativa lucana, é uma promessa do Pai. Mas, segundo tal narrativa, é necessário que os discípulos permaneçam em Jerusalém até que, do céu, sejam revestidos de força. É o Espírito Santo quem fortalece a Igreja de Jerusalém, de Nazaré, de Roma e de todos os lugares do mundo. A experiência da Paixão e Ressurreição de Jesus será comunicada pela Igreja da pregação apostólica, universal, a partir de Jerusalém para o Mundo.

            Deste modo, para Lucas, se Jerusalém é palco da morte do Senhor é também lugar da propagação do Evangelho a todas as criaturas, diferentemente de Marcos que diz que era preciso as mulheres voltassem para a Galileia, pois com os discípulos veriam o Senhor, pois Ele os precedia à Galileia (Cf. Mc 16,7-8).

            Em seguida, v. 50, Jesus os levou a Betânia, que significa a “casa dos pobres” e, erguendo as mãos, os abençoou. Esta cena transmite a ação apostólica delegada por Jesus aos seus seguidores, desde Nazaré, passando por Jerusalém, chegando a Betânia, onde morava Lázaro, Marta e Maria e muitos outros discípulos (anônimos) de Jesus.

            Logo depois, no v. 51, Jesus foi elevado ao céu. Este versículo elucida que esta ação é de Deus, teologicamente compreendida como o assumir pleno de Deus a vida do Filho. Sua vida é inteiramente de Deus e por fim acolhida por Deus. Com Cristo, junto do Pai, nossa humanidade também é assumida. Em Jesus Cristo, morto ressuscitado, estão as marcas da morte, de sua humanidade dilacerada, e também as marcas da ressurreição: o “sim” de Deus a Jesus, pois o Pai não o abandonou na morte.

            No findar da cena, Lucas diz que os discípulos voltaram para Jerusalém, local chave da ação de Jesus, do anúncio de sua Paixão, morte e ressurreição e da consumação real de sua vida, juntamente com a experiência do Ressuscitado, o Vivente. Em Jerusalém, no Templo, eles bendiziam a Deus e continuavam contentes. Trata-se da forma lucana de dizer o testemunho, na alegria do encontro, como nas parábolas da Misericórdia (Lc 15).

            A narrativa da Elevação de Jesus ao céu, a festa da Ascensão, consiste na experiência da vida de Jesus aceita e acolhida à direita do Pai. Significa que toda a vida de Jesus, seu apostolado, sua ação, sua palavra e testemunho, juntamente com seu martírio, a prova cabal de sua fidelidade a Deus, são aceitos e acolhidos por Deus como dom, como oferta e sacramento do amor.

A Ascensão de Jesus é a celebração que nos confirma que a vida total de Jesus é dom de Deus, dele procedeu a ele retorna e, a partir da sua vivência com o Pai é que ambos enviarão para os discípulos e a Igreja, consequentemente a nós também, o Espírito Santo, Senhor que nos santifica e nos fortalece no caminho do Pai, no seguimento de Jesus Cristo, vivenciando sua palavra, testemunhando com ele nosso amor pela Cruz, carregada dia após dia, na esperança de construir e solidificar o Reinado de Deus, a vida plena para todos os seres humanos (cf. Jo 10,10b).

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