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Do deserto à montanha. A transfiguração como prévia da ressurreição, a verdadeira vida.

por padre Junior Vasconcelos Amaral,

pároco, doutor em Teologia e professor de Sagrada Escritura na PUC Minas.

O que é necessário para se obter ou conquistar a vida eterna? Certamente, para se obter ou conquistar a mesma é necessário “caminhar”, atravessar as sendas sinistras da própria existência, lançando-se na arte de amar, perdoar, servir e contribuir na construção do Reinado de Deus.

Nesta caminhada, somos convidados, neste domingo quaresmal, a deixarmos o deserto da tentação em direção à montanha sagrada, provavelmente o Monte Tabor. O Tabor está localizado próximo à Nazaré, cidade onde Jesus viveu grande parte de sua vida. De Nazaré a Jerusalém, passa-se ao sopé do Tabor e avista-se toda sua magnitude e beleza. Mas é lá, no alto da montanha, que Jesus escolhe para falar com Deus, mais objetivamente ouvir a voz de Deus, o Pai. Com ele estavam Simão Pedro, Tiago e João, os três discípulos companheiros de Jesus. No Tabor Jesus antecipa a glória da Ressurreição, garantindo que todos estão no caminho certo.

Deste modo, a transfiguração de Jesus segundo Lucas é a demonstração da glória divina de Jesus. Para o evangelista da Misericórdia, Jesus é o Filho de Deus, que transparece a face amorosa e misericordiosa do Pai celestial. À imagem de Jesus, os discípulos vislumbram a face do próprio Deus, que se encarna na história humana e se faz um de nós (em grego eskenosen = armar sua tenda entre nós), ensinando-nos a amar e a servir. Tal dinâmica é perceptível no Evangelho da tradição conhecida como lucana. Tal tradição, com seu leitmotiv próprio, a ação de Deus na vida de seu Filho, elabora a narração da vida de Jesus a partir da perspectiva da solidariedade de Deus, vislumbrada nas palavras, pregações, parábolas, milagres e práxis libertadora de Jesus.

Em Jesus, Deus passa agindo na história humana, dando a conhecer sua benevolência e compaixão. A práxis de Jesus é inclusiva de acordo com o Evangelho lucano. As mulheres, os deficientes, os leprosos, os pecadores públicos, publicanos, prostitutas... Todos são igualmente dignitários do Reinado de Deus anunciado por Jesus. Basta, contudo, a conversão e a abertura irrestrita dos corações. Para Lucas, tais pessoas fazem parte da categoria querida por Deus, pois foram vilipendiadas em sua dignidade.

A transfiguração de Jesus se dá mediante a presença de seus discípulos, Pedro, Tiago e João. Juntamente com Jesus, eles sobem à montanha a fim de rezar. Esta prática era comum para Jesus e os discípulos. Lembremos que no fim da vida pública de Jesus, antes de sua morte, ele vai ao Horto das Oliveiras ( Getsêmani ) para orar. A montanha simboliza o lugar do encontro, da teofania, da revelação de Deus. Aqui fazemos memória de Moisés, o grande legislador do Povo, que ouve a Palavra de Deus no Horeb (Sinai), descendo apresenta ao povo o Código da Aliança (Ex 19-24). A montanha, por sua geografia própria, parece nos aproximar de Deus, que fala melhor no silêncio. Quem já subiu à Serra da Piedade, na Ermida da Padroeira de Minas Gerais, ou ainda, ao Pico do Ibituruna, em Governador Valadares, sabe muito bem como é a sensação do silêncio, no qual se escuta melhor da voz do vento, que parece mais sussurrar a voz de Deus.

Na montanha inominada, Jesus vive a transfiguração, a experiência prévia da Ressurreição, da Glória divina que o envolverá qual manto materno, qual força amorosa, que o fará ressuscitar a outros, a todos aqueles que nele creem. Tratar-se-ia de uma amostra grátis da Ressurreição, de uma experiência antecipada, daquilo que se dará no ápice de sua morte, na Cruz. Se a cruz sinaliza a impotência divinal, a Ressurreição se ergue qual brado infinito de certeza da vida sobre a nefasta morte. A Ressurreição inviabiliza a morte em sua moribunda realidade. A morte não terá hegemonia sobre aquele que Deus confirmou em sua perfeita caridade, o ágape. A oração de Jesus na montanha significa sua entrega a Deus, fazendo-se obediente. Sua face se transforma e o brilho traduz a força ressuscitante, de um Deus que lampeja as trevas com sua luz.  Neste facho de luz que emana da face de Cristo dá-se para perceber que esta mesma luz atingirá a cruz, e lá, lugar da ignomínia humana será lugar da glorificação divina sobre a vida do Filho, manso e humilde como o Cordeiro que resgata todo pecado do mundo, expiando para sempre a condenação, abrindo-nos as portas da eternidade de Deus.

Na realidade teofânica, da manifestação divina de Jesus, no trajeto complicado de sua vida humana, dois personagens bíblicos fazem parte do cenário: Moisés e Elias. Moisés simboliza a Lei, a Torah, indicando que, naquele exato momento, Jesus é quem se transforma, se transfigura na verdadeira Torah, a Lei suprema, que será outorgada a partir da experiência do amor, sendo transcrita no coração humano, que se abre à real expressão de amar. Elias é signo da Profecia, que jamais se acabará. O profeta Elias, o profeta por excelência, é, em meio à realidade teofânica de Jesus, quem lhe atribui a profecia da Ressurreição sobre a morte, certeza proveniente de Deus Pai. Jesus é a máxima e mais perfeita profecia que provém da boca de Deus. Ele é o Logos, Palavra encarnada que gera a Salvação para toda a realidade cósmica, em sua excelência a todo ser humano.

Os discípulos, em meio às confusões do sono, da realidade aparentemente onírica, ao acordarem se defrontam com a Glória de Jesus, que conversava com Elias e Moisés, sobre sua morte iminente. Nesse momento, os dois homens se iam afastando. Pedro, por sua vez, diz: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Na concepção de Pedro, aquela realidade deveria ser eterna. Trata-se da sensação do conforto, que nunca é eterno, que nunca durará para sempre. Pedro traduz nessas palavras a realidade humana, que deseja confiscar para si as alegrias, as vitórias, os momentos que parecem celestiais, as realidades gozosas. Trata-se de algo comum entre os seres humanos, que desejam eternizar as alegrias, em detrimento das tristes realidades que sempre retornam. Contudo, Pedro não sabia o que estava falando. Aquela era apenas uma teofania, e como toda teofania, não deveria durar para sempre. Era apenas a expressão da solidariedade de Deus no caminho da vida de Jesus. Deus quis situar seu Filho mediante a realidade que o esperava.

Naquele mesmo momento, no ápice da teofania, da transfiguração, uma nuvem os cobriu. Os discípulos estavam com medo. Trata-se da humanidade imperfeita diante do inesperado. Aquela realidade era incomum a Pedro e seus companheiros. Tratava-se de uma experiência nova e ímpar para suas vidas na esteira do seguimento de Jesus. O inédito é sempre surpreendente. Em meio às aparições de Moisés e Elias, o sono que os embriagava, agora a nuvem que os encobriu com sua sombra. No máximo desta experiência, da nuvem se escuta uma voz, que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” Trata-se da voz do Pai, expressando a autorização do poder de seu Filho Jesus. Os discípulos agora precisam ouvir Jesus. Ele é a verdadeira Palavra de Deus, a Lei e a Profecia por excelência. Trata-se da exousia de Jesus, de seu poder autorizado por Deus. Jesus é a Palavra autorizada pelo Pai, o Filho enviado para salvar o mundo com sua voz. É pela Palavra de Jesus que o mundo verá seu verdadeiro destino, a vida de Deus.

Enquanto a voz ressoava, Jesus se encontrava sozinho. Trata-se da confirmação de que Jesus é a Lei e os Profetas. Ele é o verdadeiro profeta de Deus, que porta consigo a Lei mais perfeita e suprema, o Amor. Neste cenário da transfiguração, o ouvinte da Palavra, os cristãos, tais como os discípulos, confirmam que Jesus é o único Filho de Deus, a Palavra encarnada e a máxima profecia que saiu da boca de Deus. Ele é a Lei e a Profecia, dando-nos a entender que viver o amor é cumprir esta Lei, é tornar-se também profeta.

Com toda evidência, o Evangelho de Lucas nos inspira, a partir da ação de Jesus, em sua transfiguração, à práxis do amor. As atitudes de acolhida, de perdão e de restituição da dignidade humana, podem e devem ser vividas pela Igreja e pelas Igrejas cristãs nos tempos de hoje. Há, portanto, que se conhecer o papel dos cristãos, povo de Deus, no mundo de hoje: sinalizar o amor de Cristo, Luz dos Povos, irmanando os seres humanos na fé, na esperança, na consolidação do Reinado de Deus. Para que isso aconteça, a Igreja Católica e as Igrejas cristãs precisam ser corajosamente proféticas, denunciadoras do pecado e proclamadoras do amor de Deus, da esperança que impele os corações humanos para a práxis do amor e da esperança, para a construção de um mundo melhor e mais fraterno. Que nossa Lei (Torah) seja o amor, que nossa profecia seja Jesus Cristo, o Salvador da humanidade.

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