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Da montanha sagrada à necessária conversão de vida

por padre Junior Vasconcelos Amaral,

pároco, doutor em Teologia e professor de Sagrada Escritura na PUC Minas.

O itinerário quaresmal do cristão é marcado pela palavra conversão. Das cinzas à montanha e da montanha ao convite de Jesus para a mudança de vida notamos uma verdadeira mistagogia, um caminho que nos conduz ao mistério pascal (mysterium paschale), à Paixão Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, à essência querigmática (anúncio) de nossa fé cristã. A quaresma é assim um tempo existencial e cronológico de preparo e realização da promessa salvífica de Deus, trata-se de um tempo pascal de preparação, para o que viveremos profundamente no tempo pascal e culminará em Pentecostes, com a vinda do Espírito Santo de Jesus, que não nos deixará caminhar órfãos na Igreja e no Mundo.

Na mistagogia divina, no caminho ao mistério de Deus, que nos conduz pelas mãos, como uma mãe que leva seu filho (sua filha) a escola, somos convidados hoje a alargar o horizonte de nosso coração na experiência de compaixão, misericórdia, bondade e justiça divinas. Neste terceiro domingo quaresmal nos deparamos com uma liturgia que nos faz pensar mais em nossas atitudes que meramente nas atitudes alheias. Comumente somos tentados a olhar mais para a vida dos outros que para a nossa própria. No Evangelho de Lucas (13,1-9), que inspira este ano litúrgico e serve de inspiração para esta catequese eucarística dominical, nos deparamos com uma situação inusitada nos versículos introdutórios do relato (vv. 1-2). Trata-se de algumas pessoas que levam a Jesus uma notícia trágica de que Pilatos havia profanado a memória e a morte de alguns galileus, misturando seu sangue com o sangue do sacrifício que ofereciam. Além de o sangue ser um símbolo de impureza este é misturado ao sangue das suas próprias oferendas, possivelmente cordeiros que iam ser imolados por ocasião da Páscoa, um verdadeiro ultraje à dignidade de uma pessoa.

Este episódio de repressão tem como sinal a brutalidade e o menosprezo do Governador Romano Pôncio Pilatos para com os galileus. O ato de matar alguns romeiros galileus, enquanto se preparavam para o sacrifício suscitou a indignação e o horror nos habitantes de Jerusalém. Estes galileus a que Lucas se refere pode se tratar não de todo o povo que vivia na Galileia, mas de um grupo de pessoas, que teve sua origem por volta do ano 6 d. C, conhecido como zelote. Eles propugnavam o zelo com as tradições, com o modo próprio de vida na Galileia, buscando defender o interesse do povo da terra, dos mais pobres sobremaneira. Buscavam manter a fidelidade aos costumes e regras de santidade, bem como não deixavam que a enculturação helênico-romana ganhasse espaço entre eles. Tratava-se de um grupo de resistência frente ao imperialismo romano. É valido ressaltar que o movimento zelota propugnava ainda a luta armada contra a ocupação romana. Esta introdução nos leva a pensar que o que estas pessoas que vão até Jesus desejam é saber o que ele pensava e propunha em relação ao zelotismo. Queriam, na verdade, saber se ele era adepto ou contrário ao movimento de resistência presente em sua terra.

Jesus, que convive com a sabedoria de Deus, não diz nem que sim, nem que não. Jesus não é zelote, mas não condena os zelotes. Ele é o Filho de Deus e, certamente, sabia que em meio ao zelotes havia pessoas justas, com a intenção de buscar o Reino de Deus (basileia tou theou), como entre os partidários de Herodes, os herodianos, havia pessoas sensatas. Jesus trabalha com o equilíbrio, com a medida certa.

A resposta de Jesus diante da querela suscitada é: “'Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. A resposta de Jesus é enfática, revelando que se não houver conversão haverá morte, pois o pecado leva a morte. Para ele, ser zelote ou galileu não significa ser pior que ser judeu de Jerusalém. A essência, ser humano e ser capaz de amar conforme o mandamento de Deus, é o que importa. Neste sentido, Jesus diz que todos devem se converter para Deus, que é o verdadeiro Senhor da história humana, composta por zelotes ou judeus piedosos.

No v. 4, Jesus introduz outro fato histórico acontecido contemporâneo a ele, a queda da Torre de Siloé, ao sul de Jerusalém, lugar da saída das fontes de Giom, onde dezoito pessoas foram mortas. “E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles?” Para Jesus, eles não eram piores que nenhum outro ser humano: “Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não”. Para Jesus, este acidente não foi ocasionado pelo pecado dos dezoito homens, nem sequer pela ira de Deus, apenas foi um incidente, algo que fugiu à naturalidade dos fatos. Contudo, Jesus aconselha seus interlocutores: “se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. Para Jesus, tal fato pode acontecer na vida de qualquer um. No entanto, o mais importante é a conversão, a mudança de pensamento e vida.

A conversão, ou arrependimento, não consiste num ato meramente casual: “estou arrependido pelo que fiz”, mas numa ação contínua e perene, pois se trata de mudança de pensamento (metanoia), atitude e prática em longo prazo, visando à conversão interior, que se transborda na nova realidade de ser e agir no mundo. Jesus convida a todos à conversão, pois todos são pecadores. “Converter-se significa acolher a presença salvadora de Deus oferecida em Jesus. Rejeitá-la seria algo pior que um desastre” (ANDRADE, Aíla Luzia Pinheiro. Uma presença que convida à conversão. In.  Revista Vida Pastoral.  (2013), 54, n. 289. p. 40.

Em seguida, Jesus propõe uma parábola para melhor explicitar o sentido e a importância da mudança, do ato mesmo de se arrepender e mudar de vida. Um homem tinha uma figueira, que curiosamente estava plantada numa vinha. O que será que Jesus queria dizer com uma figueira plantada na vinha? A imagem da figueira estéril era comum nas narrativas bíblicas para indicar o comportamento infiel do povo de Deus, Israel (cf. Jr 8, 13; Mq 7,1). A figueira também representava Israel, haja vista que em Israel era comum a produção deste fruto. Contudo, esta figueira estava inutilizando a terra, não dava frutos no tempo certo. O vinhateiro, o que cuidava da vinha, convenceu o dono da terra a dar um prazo para que a figueira pudesse produzir, ou seja, para que ela fosse capaz de naturalmente gerar vida: “Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás” (v 8).

A atitude do vinhateiro, preocupado com a produtividade da figueira, lembra-nos a atuação de Jesus, inaugurada no “ano jubilar”, em Lc 4,18. Significa, portanto, que pelas palavras de Jesus, o vinhateiro do Pai, é concedida uma nova oportunidade a Israel, a fim de que gere frutos de justiça (dikaiosyne) no tempo certo. Isto significa em outras palavras que nos é concedida uma nova oportunidade de gerar a vida, vida querida por Deus. No entanto, é a partir da conversão que esta vida pode ser gestada em nós. Só haverá salvação verdadeira para nós se houver em nosso coração e em nosso ser mais íntimo o desejo de mudança, de conversão, mudança que se externaliza em atos de bondade, misericórdia, altruísmo, compaixão (como por exemplo a compaixão do samaritano Lc 10,25-37). Desta maneira, a salvação será plena em nós se gerarmos para o mundo frutos de misericórdia, de justiça e de caridade, de modo contrário, seremos condenados.

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